Temporada de esqui promete ser ainda mais glamourosa para brasileiros

O mercado brasileiro de turismo de neve vive um momento histórico, com o Brasil superando a França nas vendas globais de pacotes de inverno do Club Med em 2025

Família vestida com roupas de inverno — agasalhos, cachecóls e protetores de ouvido — sorri junta em uma passarela de madeira, tendo ao fundo uma imponente cadeia de montanhas cobertas de neve sob um céu azul ensolarado.

O mercado brasileiro de turismo de neve vive um momento histórico, com o Brasil superando a França nas vendas globais de pacotes de inverno do Club Med em 2025 (Foto: ClubMed)

Brasil supera a França no Club Med, cresce em Bariloche e aparece entre os principais mercados de Aspen. Para 2026/27, o cenário aponta para uma presença cada vez maior de brasileiros nos destinos de neve, impulsionada por novos consumidores de alta renda e pela busca por experiências. Nos Alpes, falar português já não é novidade

Em 2025, vi neve pela primeira vez no Alasca, de tênis e sem casaco, numa viagem de gente do turismo que devia saber se vestir para a montanha e não sabia. Liguei para cinco pessoas só para mostrar aquilo pelo telefone. Ninguém atendeu, e voltei obcecado. No inverno seguinte, já estava em Mendoza, no famtrip do Fernando Musauer, depois de semanas de aula de skate para aguentar a descida. Foi em "LAAX (estação de esqui e snowboard na Suíça, conhecida por sua estrutura moderna, ambiente jovem e forte cultura de esportes de neve)" que a obsessão virou projeto: a estação mais receptiva que já pisei, com gente atenta por perto, o Claude Bravi e o próprio Fernando, onde aprendo a esquiar com confiança, a falar de neve com propriedade e a transformar o gosto em trabalho. O retorno a "LAAX (estação de esqui e snowboard na Suíça, conhecida por sua estrutura moderna, ambiente jovem e forte cultura de esportes de neve)" segue sendo tramado nas DMs (mensagens diretas); antes dele, Cerro Bayo, com a família inteira contagiada pela minha empolgação. Em pouco mais de um ano, saí de quem nunca tinha calçado uma bota para quem conta as semanas até a neve. A curva que os números a seguir medem no mercado, eu vivi antes de saber que era curva. O Brasil ultrapassou a França nas vendas globais de pacotes de neve do Club Med em 2025, pela primeira vez na história da rede. A semana de early booking de março faturou R$ 360 milhões, alta superior a 50% sobre a mesma campanha de 2024, com mais de 20 mil reservas. No ano, a rede levou cerca de 32 mil brasileiros à neve. Quem vende neve no Brasil não levou susto com esse número. Ele põe em planilha o que já estava na fila do teleférico e na agenda das operadoras há pelo menos três temporadas.

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Cerro Bayo, Argentina | O Cerro Bayo fica em Villa La Angostura, uma vilazinha encantadora da província de Neuquén, no coração da Patagônia (Foto: Reprodução/dicasargentina)

Da porta de entrada aos Alpes

Há três níveis de demanda. Na base, os Andes funcionam como porta de entrada: o Chile recebeu 787 mil brasileiros em 2024, seu segundo maior mercado emissor internacional, e Bariloche somou 54,9 mil entre junho e setembro de 2025, com projeção de 65 mil para o inverno seguinte. No segmento de maior valor, aparecem os Alpes. O Club Med chegou à liderança global do segmento de neve em receita. Courchevel registrou cerca de 82 mil estadias de brasileiros na temporada 2024/25, mantendo o Brasil entre os quatro principais mercados emissores do destino, ao lado de Reino Unido, Estados Unidos e Emirados Árabes. A Suíça fechou 2024 com mais de 330 mil pernoites brasileiros, alta de 21% sobre 2023 e 40% acima de 2019.No topo está o destino como assinatura. Aspen aparece entre os três principais mercados internacionais, segundo informações da própria estação, com brasileiros disputando espaço com mercados já consolidados. A leitura desses números mostra que não se trata apenas de um pico pontual. O público está chegando à neve por diferentes caminhos e faixas de consumo.
 

Sandro Ricken (na imagem) teve o seu primeiro contato com a neve em 2025. No inverno seguinte, ele esquiou pela primeira vez em Mendoza (Foto: Sandro Ricken)

 Mais ofertas para  novos hábitos

A renda ajuda a explicar esse movimento. A Bain & Company mediu o mercado de luxo brasileiro em R$ 98 bilhões em 2024, com crescimento acumulado de 26% entre 2022 e 2024, contra 3% global. O segmento de Hotéis e Experiências cresceu 16%, acima da média do setor. Globalmente, a rede de agências de luxo Virtuoso registrou faturamento 25% maior em 2024 em relação a 2023 e mais de 200% acima de 2019.No Brasil, a Visa Consulting & Analytics registrou alta de 20% nas transações realizadas com cartões Visa Infinite emitidos no país em destinos de neve em 2025, na comparação com 2024. Nos Alpes Suíços, o crescimento foi de 23%; em Ushuaia, 22%; em Valle Nevado, 20%; e em Bariloche, 12%. A expansão também aparece no mercado profissional. Na ExpoSKI 2025, que reuniu 85 montanhas de oito países em sua sexta edição, 40% das agências participantes vieram de fora de São Paulo. O evento gerou cerca de 1.800 reuniões B2B (business to business, ou negócios entre empresas) em setembro. O Brasil cresceu 140% nas estações francesas entre 2019 e 2025 e 57% nos Alpes franceses no mesmo período, este segundo número filtrado para excluir brasileiros com passaporte europeu. O Club Med anunciou a ampliação do número de funcionários brasileiros nos hotéis dos Alpes, de cerca de 10 para 75 até o fim de 2026. É uma adaptação da operação ao crescimento desse público.A mudança também aparece no varejo. A The North Face teria crescido na casa dos 40% em 2024, segundo informações do setor. A Shop2gether ampliou em 150% o portfólio focado no inverno europeu. A NV, do grupo Azzas 2154, lançou a Voyage Winter Escape, sua primeira cápsula de esqui. A Farm mantém uma linha de neve recorrente desde 2022. Na Faria Lima, a Born to Ski abriu uma escola de simulador, com aulas a R$ 350. A neve começa, assim, a ocupar espaço também no universo da moda, do treinamento e do estilo de vida.
 

O mercado de luxo brasileiro apresentou expansão expressiva nos últimos anos, impulsionando a procura por experiências sofisticadas de viagens e hotéis de montanha (Foto: Sandro Ricken)

O que esperar desta temporada?

Alguns fatores podem alterar esse cenário. A vantagem cambial argentina favoreceu Bariloche entre 2022 e 2023, mas perdeu força em termos reais a partir do fim de 2024, durante o governo de Javier Milei, contribuindo para que parte dos viajantes migrasse para o Chile.O chamado revenge travel, movimento de retomada das viagens represadas durante a pandemia, já estava normalizado em 2024. Os Jogos Olímpicos de Inverno também trouxeram visibilidade para os destinos de neve no início de 2026, mas ainda não há dados públicos suficientes para medir quanto dessa exposição se transformou efetivamente em viagens. Para os próximos anos, o cenário aponta para uma fase de descoberta em 2026 e 2027, seguida por maior seleção de destinos, capacidade aérea e preços em 2027 e 2028. Há riscos, claro: uma eventual estabilização do peso argentino pode devolver competitividade a Bariloche e ao restante da Argentina; uma redução da oferta aérea pode encarecer os destinos europeus; e o interesse pode se acomodar depois do impulso provocado pelos Jogos de Inverno. Ainda assim, o ambiente econômico para o consumidor de alta renda continua relevante. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3% em 2025, enquanto a taxa básica de juros, a Selic, ficou em 15%. O consumo das famílias desacelerou para 1,3%, mas a agropecuária cresceu 11,7%, impulsionada por safras recordes de milho e soja.E uma parte importante da renda que movimenta esse mercado está cada vez mais fora dos grandes centros.Hoje, em qualquer fila de teleférico nos Alpes, alguém fala português a dois metros de você. É gente nova, chegando aos destinos de neve por diferentes motivos: renda, experiência, esporte, gastronomia, moda e, principalmente, vontade de conhecer. Os holofotes da temporada passam. A procura, ao que tudo indica, permanece. A gente se vê na pista. Au revoir, hasta luego, até a próxima.
 

Aspen | Aspen consolida-se como um dos principais mercados internacionais da estação norte-americana, com uma presença cada vez mais marcante de viajantes brasileiros de alta renda (Foto: Reprodução/aspensnowmass)

Anote

Temporada nos Alpes — 2026/2027

A temporada de esqui europeu começa, dependendo da estação e das condições de neve, entre novembro e dezembro de 2026 e segue até março, abril ou maio de 2027.

Bariloche — temporada 2027

A temporada de neve aqui, começou em junho e vai setembro variação de acordo com as condições climáticas.

LAAX — Suíça

Destino de destaque para esqui e snowboard, conhecido também pela estrutura voltada aos esportes de neve.

Courchevel — França

Um dos destinos mais sofisticados dos Alpes franceses e parte da região de Les 3 Vallées.

Aspen — Estados Unidos

Destino internacional de esqui e luxo, com estações de neve, hotéis, restaurantes e comércio de alto padrão.

Cerro Bayo — Argentina

Estação de esqui localizada em Villa La Angostura, na Patagônia argentina.

Valle Nevado — Chile

Um dos principais destinos de neve dos Andes e um dos mais procurados pelos brasileiros.

Club Med

A rede oferece resorts de neve nos Alpes e em outros destinos de montanha, com sistema all inclusive.

A temporada nos Alpes europeus para 2026/2027 promete bater novos recordes de visitação brasileira, estendendo-se de novembro e dezembro até a primavera local (Foto:Sandro Ricken)

Datas das temporadas de esqui mencionadas

  • LAAX (Suíça): temporada de inverno geralmente de dezembro a abril
  • Courchevel (França): dezembro a abril (pico em janeiro e fevereiro)
  • Aspen (EUA): novembro a abril
  • Cerro Bayo (Argentina): Junho até setembro
  • Valle Nevado (Chile): Junho a setembro
  • Bariloche (Argentina): Junho a setembro
  • Alpes europeus (geral 2026/2027): novembro/dezembro de 2026 a março/maio de 2027
  • Club Med (resorts de neve): operam conforme a temporada local de cada destino (principalmente inverno do hemisfério norte e sul)
       
    Edição: Márcia Santos
    Imagens: Divulgação Sandro Ricken; ClubMed; Aspen  SnowMass; e Dicas Argentina

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